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domingo, 20 de setembro de 2015

Maquinas de cartão de credito e a inacessibilidade para deficientes visuais.

Não sou velho, mas sou do tempo das mercearias, aquelas vendinhas de interior onde comprávamos de tudo e ainda podíamos anotar o débito na caderneta, adiando a facada, pendurando a dívida e consagrando o fiado. Com o avançar do tempo, tais vendinhas foram caindo em desuso, bem como a prerrogativa do fiado, o que acabou sendo substituído por novos e mais seguros sistemas de crédito e de transações financeiras, entre elas o dinheiro de plástico, também conhecido como cartão de crédito ou de débito.
Hoje em dia, qualquer comércio ou prestador de serviço que se preze, dos mais caros aos mais baratos, oferece a seus clientes a opção de pagar através de máquinas de cartões de crédito ou de débito. Pagam uma taxa mensal e uma porcentagem sobre as vendas para atrair mais clientes, impulsionar maiores vendas, evitar acúmulo de dinheiro no ponto, flexibilizar a forma de pagamento e por ai vai. Por outro lado, cresce cada vez mais a quantidade de pessoas que fazem uso de cartões, como forma de ter maior acesso à créditos e formas de pagamento flexíveis, de fugir de furtos e roubos de dinheiro, de ter sempre dinheiro “disponível”, e por ai vai.
Trata-se de uma forma de pagamento que tem evoluído consideravelmente com o atual avanço tecnológico. Com os cartões de débito e de crédito e suas máquinas espalhadas por ai, não precisamos nos preocupar em ficar com o dinheiro tradicional pelos bolsos, incomodados com os ladrões pelas ruas, muito menos com a falta de trocos pelos balcões que sempre nos enchem de balinhas. Além disso, a finada caderneta virou fatura de cartão de crédito e os assustadores cheques voadores deixaram de ser preocupação para quem vende. Mas o que isso tem a ver com o Olhar de Um Cego?
Calma caros leitores! Não mudamos a perspectiva de nosso blog para a seara financeira. O real intuito deste post é alertar que, depois de tanta evolução, de tanto progresso nas transações financeiras e do conseqüente e constante aumento de usuários do tal dinheiro de plástico e de suas máquinas, devo dizer que infelizmente o momento agora é de retrocesso. E sabe quem vai pagar, ou melhor, quem não vai conseguir pagar com este retrocesso? Nós deficientes visuais.
Devo explicar melhor! Eu, enquanto consumidor e cego, uso quase que diariamente meus cartões de crédito e de débito, sobretudo para pagar coisas do cotidiano, como almoços, lanches, farras, passagens, combustível, mercados e táxis. E foi neste último serviço que acabei me deparando com o retrocesso cruel da inacessibilidade. Já havia um bom tempo que não pegava táxi e mais tempo ainda que não o pegava para pagar com cartão. Fiquei surpreso quando o taxista, ao ver que eu estava só, me perguntou se eu realmente pretendia pagar a corrida com o cartão, como eu havia sinalizado à atendente. Quando disse que iria depender do valor da corrida, ele então sinalizou que a maquinetazinha do cartão era touch screen, o que me impediria de digitar a senha. Durante a viagem o taxista camarada me informou que havia duas operadoras que estavam oferecendo taxas bem mais baixas, disponibilizando uma maquineta mais simples, o que já atraiu a ele e a maioria dos seus colegas de táxi. Me mostrou então a tal maquineta, ao que percebi ser bem básica mesmo, com a tela quase do tamanho da de um celular, totalmente touch screen e, o que é pior, sem Android. Sorte minha que o valor da corrida ficou bem aquém do que eu esperava, dando pra pagar com o pouco dindin que tinha no bolso.
Aproveitando as informações do taxista, que inclusive ficou de reclamar com a sua operadora Cielo, fiz uma pequena pesquisa sobre as duas novas máquinetazinhas de cartão, dois remédios para redução de custos e, ao mesmo tempo, duas pragas da inacessibilidade para deficientes visuais que são oferecidas pelas empresas Cielo e Pague Seguro.
A Pague Seguro disponibiliza uma maquineta que isenta o cliente de taxas, onde se paga um valor fixo de 500 contos pela maquinetazinha. A ela deram o nome de “Moderninha”, mas, em termo de acessibilidade, de moderninha não tem nada. A Cielo, por sua vez, disponibiliza o Cielo Mobile, onde o cliente recebe um leitor de cartão e paga apenas R$ 11,90, com taxas que variam entre 3% e 7%. Esse leitor era a tal maquinetazinha do camarada taxista que citei e é totalmente inacessível para consumidores deficientes visuais.
Julgo ser importante a criação de inovações que favoreçam a competitividade, disponibilizando redução de custos através de tecnologias mais baratas. Não obstante, creio ser inadmissível o favorecimento de determinados segmentos em detrimento de outros. Sei que estamos falando aqui de um negócio que envolve milhares de empreendedores e bilhões de dinheiro, mas é fundamental que se considere que se trata de milhares de pessoas cegas em todo o mundo que são consumidores e devem ter os seus direitos preservados.
Nem vou entrar no mérito de que, até então, as máquinas de cartões eram todas acessíveis, por disponibilizarem um teclado físico com uma marcação na tecla “5”, muito menos no mérito de que o pagamento com cartão facilita um tanto a vida do consumidor com deficiência visual. Quero sim deixar claro aos “inovadores” da Cielo e da Pague Seguro que, modernizar os seus dispositivos nada tem a ver com torná-los inacessíveis. Muito pelo contrário! Tenho certeza de que, em algum momento, alguém deve ter imaginado sobre a dificuldade que algumas pessoas teriam ao terem que digitar senhas em telas touch screen, mas, como tudo é dinâmico e rápido no processo de captação de clientes, certamente deram preferência por ignorar ou, pelo menos, por adiar tal “preocupação”. Devo lembrar que inovação e modernização estão diretamente ligados à acessibilidade para pessoas com deficiência, sendo que tal acessibilidade é tão prioritária quanto a redução de custos e a captação de clientes.
Como a acessibilidade e o respeito ao consumidor deficiente visual infelizmente não foram pensados nos novos produtos da Cielo e da Pague Seguro, creio que ainda está em tempo de pensá-los. A melhor opção seria disponibilizar uma máquina de leitura de cartão que possua um teclado físico, o que certamente não encareceria os dispositivos, manteria a redução dos custos para os seus clientes e, diferente dos atuais, manteria também a autonomia e a igualdade de oportunidades para os seus milhares de consumidores deficientes visuais, bem como para consumidores com outros tipos de deficiência.
Devo salientar que o problema não é o touch screen, uma tecnologia maravilhosa que tem alcançado cada vez mais um maior número de dispositivos de nosso cotidiano. Pessoas cegas lidam muito bem com o toque na tela, sendo que já falei aqui que celulares touch screen chegam a ser bem mais acessíveis do que celulares com teclados físicos. O problema está no fato de um dispositivo touch screen não disponibilizar um leitor de tela para possibilitar o seu uso por pessoas cegas. No caso da tal Moderninha e do tal Cielo Móbile, isso se resolveria com uma plataforma Android que já vem com um leitor de tela embutido, o Talk Bac, que, se disponibilizado nesses dispositivos, poderia ser acionado pelo vendedor para que colocássemos a senha utilizando um fone de ouvido. O Android foi pensado justamente para isso: ser livre para acompanhar qualquer dispositivo, sem nenhum custo a mais por isso.
O camarada taxista ficou de reclamar junto à Cielo e a pensar em alguma adaptação que tornasse o teclado virtual acessível para seus clientes cegos. Eu, sinceramente, só consigo achar as duas alternativas supracitadas. De qualquer sorte, fiz a minha parte ao entrar em contato com as referidas empresas para que passem a considerar o nosso segmento como potenciais clientes de seus clientes. Coloco abaixo os endereços da Cielo e da Pague Seguro e sugiro que você, como eu e o camarada taxista, façam o mesmo. Se houver alguma resposta por parte das empresas, postarei aqui!
Fale com a Cielo
Fale com a Pague Seguro
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Fonte:Artigo retirado do blog Olhar de um cego, para ter acesso aos links citados no texto acima acesse o endereço do blog abaixo.

https://olhardeumcego.wordpress.com/2015/04/12/inacessibilidade-para-cegos-o-retrocesso-que-operadoras-de-credito-estao-impondo-as/

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