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domingo, 24 de abril de 2016

As plaquinhas.



Passo por estas situações tantas repetidas vezes. Mas hoje, não sei o
porquê, me tocou de uma forma mais profunda. Diariamente, andando
pelas ruas da cidade, encontro pessoas que me dedicam seus olhares de
pena. E eu me calo diante da realidade dos fatos. Essa realidade que
apenas eu conheço, e eles não. A grande verdade, que estas pessoas
desconhecem, é que a pena que sentem, traduz unicamente os seus medos
e frustrações projetados em mim, como se eu representasse aquilo que
eles tanto temem, todos os seus medos traduzidos em uma pessoa. Tanto
medo de não ver, tanto medo de ser enganado, sem saber eles, coitados,
que vivem presos em uma cela de ignorância, algemados por esta tão
triste realidade de pensar que são felizes e saudáveis. Porém hoje,
estava eu acomodada no conforto fabuloso de uma maravilhosa cafeteria
de Bento, e havia um ser na mesinha ao lado. Uma senhora fina, talvez
no auge dos seus 40 anos. Julguei isso tudo pela voz, pela postura e
maneira de falar. Eu ouvia sua respiração, era aflita... E sentia o
peso dos seus problemas. Eu podia ver, acreditem vocês ou não, a sua
aura, enegrecida e perturbada pela impotência diante de algo que a
afligia. E ela ofereceu-se para auxiliar-me em alguma coisa simples,
ajuda que eu não pedi nem necessitava. Primeiro senti uma certa raiva
daquela atitude. Sou humana e nem sempre compreendo a ignorância
alheia. Mas depois, reparando no seu olhar de pena, e na sua aura. Me
dei conta de que ela talvez saísse dali menos aflita, mais confiante,
simplesmente porque para ela, a minha deficiência deve ser um peso
maior do que os seus problemas. Tenho esperança de que este seja o
desfecho da história. Afinal, prefiro que as pessoas pensem que são
mais felizes que eu, talvez assim encontrem ânimo para suas lutas. Por
outro lado, muitas vezes eu sinto um desejo tão grande e que sou
obrigada a conter... O desejo de dizer tudo que penso, o quanto minha
deficiência me fez ver muito mais longe, perceber as minúcias e
malícias, das pessoas e do mundo. Me controlo muito para não despejar
nestes infelizes as verdades tão sutis que sua cegueira espiritual
nunca permitirá que eles vejam. Mas sei que não posso. Afinal, cada um
terá seu momento de acordar e perceber que existem realidades
paralelas à aquelas que se pode enxergar. A vocês, caros amigos e
leitores, espero apenas que percebam o que quero dizer nas entrelinhas
dos meus pensamentos.
Ontem minha mãe me relatou um fato que ilustra muito bem aquilo qe eu
quis dizer neste texto. Ela estava resolvendo assuntos no centro da
cidade onde mora, e
encontrou uma moça cadeirante passando por apuros para descer uma
calçada. Parou para ajudá-la, porque esta solicitou ajuda. Minha mãe
seguiu o caminho acompanhando-a, já que iam para o mesmo lado. Então
minha mãe contou para a moça que ela tem uma filha deficiente visual,
que no caso, sou eu. Então a cadeirante parou a cadeira, olhou para
minha mãe e disse: Ah, coitada! Pois é, lembram da frase "o sujo
falando do mal lavado", eis o que nos revolta. As pessoas, muitas
vezes, tem problemas muito maiores do que uma deficiência, mas ficam
com pena da gente, só porque nosso problema é visível, e os milhões de
problemas que eles têm não são perceptíveis. Afinal, manter as
aparências de uma vida feliz e substanciosa é muito fácil. Difícil
para eles, seria carregar a imagem dos seus dramas por onde vai.
Imagine-se andar com uma plaquinha escrito "meu marido tem outra" ou
"meu filho é drogado", ou quem sabe "eu apanho em casa". Pois é
exatamente o que acontece conosco. Nós andamos com uma bengala que
declara "eu sou cego". Agora pergunta qual dos problemas eu prefiro
ter? Desculpem-me a franqueza, mas eu fico com minha cegueira.

Autora:
Camila Gandini

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