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terça-feira, 26 de julho de 2016

DEPOIMENTO: ‘A CEGUEIRA NÃO PODE ME IMPEDIR DE TER UMA VIDA COMO A SUA, MAS VOCÊ PODE’

Marina Yonashiro
Enquanto a escada rolante me levava para o alto, eu pedia mentalmente para que houvesse resquícios de luz no lado de fora. Não haveria, eu sabia que não, e meu coração pesava por isso. O mundo girava, girava, estando ou não escuro lá fora. A escada continuava a subir e eu tentava não pensar.

Dei alguns passos para frente, olhando o céu. A iluminação vinha das luzes amarelas e brancas dos postes e prédios. Fui contra o ar da noite, contra o frescor da rua que me oprimia. Encontrei o piso tátil com a ponta da bengala e tentei segui-lo. Eram apenas dois quarteirões até a faculdade. Apenas dois, podia ser pior. Já tinha ouvido histórias piores.

A primeira pessoa esbarrou em mim com certo descaso. Segurei a bengala com mais força e apertei os olhos na escuridão para tentar desviar da próxima vez. Consegui ver um vulto, quando estava a um braço de distância. Minha visão, naquele breu, não podia fazer mais que aquilo.

Tive que dar uns passos para fora da linha que me guiava. Depois, fiz um gesto para encontrá-la novamente, mas um grupo de jovens falando e rindo alto cruzou meu caminho. Segui em frente, desorientada, procurando luzes que pudessem me guiar em meio às pessoas andando apressadas, como verdadeiras paulistanas. Como se faz verdadeiramente em uma avenida Paulista.

Uma pessoa tropeçou na minha bengala. Ela chegou a levantar a voz, mas logo calou-se ao me ver. Pelo menos isso: a docilidade muda daqueles que se acham superiores.

Além da bengala, coloquei o outro braço à frente do corpo. Eu não podia recuar nem esperar a ajuda de alguém. Encontrei, enfim, o piso tátil. Meus ombros relaxaram, até que ouvi música um pouco mais adiante, exatamente na minha frente. Abandonei novamente meu orientador pensando em tantas atitudes revoltosas e não podendo expressar nenhuma.

Eu precisava estudar. Conseguir um diploma e uma chance de ser efetivada no local onde estagiava. Estudar para que um dia fizesse um juramento do qual não me lembraria dali a três meses. Estudar para debater com pessoas que nunca leram Foucault ou Bourdieu. Estudar para ser esquecida, para ser invisível.

Carros buzinavam, motos rugiam. Vários ônibus passaram em grande velocidade, em uma velocidade que não parecia natural um automóvel tão grande se mover, e suor escorria das minhas têmporas e entre meus seios.

Vi a larga entrada da faculdade. Desviei de algumas pessoas para conseguir entrar e guardei minha bengala, porque agora meu desafio era outro.


Fonte:http://ondda.com/noticias/2016/07/depoimento-cegueira-nao-pode-me-impedir-de-ter-uma-vida-como-sua-mas-voce-pode

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