Pesquisar

Minhas Redes Sociais – Nosso contato direto com você

No link abaixo nosso contato e nosso endereço de redes sociais. Siga-nos nestas Redes Sociais e tenha sempre acesso as informações que publicamos regularmente.



CLIQUE AQUI!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Terminologias corretas: É cego ou deficiente visual?


Texto retirado do blog olhar de um cego.

Para começar, vou tecer aqui alguns comentários sobre as terminologias relacionadas às pessoas com deficiência visual que trata-se de um mote recorrente nos ambientes onde está sendo discutido algo relacionado. Constantemente me bato com referências equivocadas em relação a mim enquanto deficiente visual e sempre me perguntam sobre a forma correta de fazer tal referência. Considero importante um cuidado na escrita ou na fala, quando tais processos de linguagem verbal são utilizados para se referir às pessoas que possuem alguma incapacidade física ou sensorial.
A Wikipédia diz que “Terminologia, em sentido amplo, refere-se simplesmente ao uso e estudo de termos, ou seja, especificar as palavras simples e compostas que são geralmente usadas em contextos específicos”. Nada mais é do que a forma correta de se referir a determinada coisa.
Atualmente, no nosso caso, o termo adequado é “pessoa com deficiência”. E tal termo não surgiu de uma hora para outra, muito menos para impor regras que possam parecer dispensáveis diante de tantas outras prioridades. Dia desses eu ouvi de um deficiente visual que ele é muito bem resolvido com a sua deficiência e que pouco importa a forma como se referem à sua deficiência ou à sua cegueira. No meu caso, devo dizer que também sou muito bem resolvido com a minha deficiência e me importo sim com tais referências.
Vários termos já foram utilizados para se referir às pessoas com deficiência: deficiente, pessoa deficiente, pessoa defeituosa, especiais, excepcionais, portadores de deficiência etc. Com o passar dos tempos, tais conceitos foram evoluindo, através de debates, discussões e da própria evolução da sociedade e de seus valores, tendo sido adotado nos anos 80 o termo “portadores de deficiência”. Já nos anos 90, chegou-se à conclusão de que a deficiência faz parte da pessoa e que esta não apenas porta a deficiência. Quando nos referimos a alguém que tem olhos azuis, dizemos “aquela menina ou aquela pessoa com olhos azuis” e não “aquela menina / aquela pessoa portadora de olhos azuis”. Somado isso à necessidade de se anular estigmas e de indicar que o fato de tratar-se de uma pessoa é mais importante e se sobrepõe ao fato de ter uma deficiência, passou-se a utilizar o termo “pessoa com deficiência”.
O que acontece é que muitas legislações e instituições, por conta da burocracia e dificuldade de mudanças de termos, ainda utilizam termos “ultrapassados” e, portanto, inadequados. É o caso de leis e decretos em vigor que têm em seu texto o termo “portadores de deficiência” e de instituições como a AACD que significava “Associação de Assistência è Criança Defeituosa” e passou a se chamar “Associação de Assistência è Criança Deficiente” ou como a APAE que significa “Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais”.
Em uma era de evolução no processo de inclusão das pessoas com deficiência, o cuidado com a linguagem é fundamental. romeu kazumi sassaki, em “terminologia sobre deficiência na era da inclusão” diz que “a construção de uma verdadeira sociedade inclusiva passa também pelo cuidado com a linguagem. na linguagem se expressa, voluntariamente ou involuntariamente, o respeito ou a discriminação em relação às pessoas com deficiências”. É fato que estigmas e preconceitos podem perfeitamente habitar uma referência que se utiliza de termos ultrapassados.
Deficiente ou pessoa deficiente pode se confundir com à falta de eficiência da pessoa, algo que já é equivocadamente pré-julgado por muitos. Repare que a palavra “deficiência” quando utilizada, refere-se a uma deficiência específica da pessoa (física, visual, auditiva, intelectual ou mental) e não à uma deficiência da pessoa como um todo como sugere o adjetivo “deficiente” puro sem especificar qual.
Pessoa especial vem de encontro à nossa busca por manter uma vida normal, sendo que a diversidade é inerente ao ser humano e se todos somos diferentes, com nossas especificidades, então todos somos especiais.
Excepcional significa extraordinário e refere-se àquelas pessoas que têm o QI abaixo ou muito acima da média.
Portadores de Necessidades Especiais se refere a todas as pessoas com necessidades específicas, como grávidas, enfermos, idosos, crianças ou qualquer outro grupo com determinada necessidade e não apenas as pessoas com deficiência, mas comumente é utilizado pra se referir a estes últimos. E só por ter “portadores” eu creio ser mais lógico se referir a pessoas com determinada necessidade temporária. Creio que o uso deste termo manifesta uma clara segregação, já que necessidades especiais todos têm e não apenas pessoas com deficiência.
Aleijado, inválido, incapaz, retardado , ceguinho, mudinho e tantos outros termos pejorativos têm grande carga depreciativa e acho que nem é preciso explicar o porquê de não se utilizar tais termos, né?
Por falar em pejorativo, o único termo que eu não aceito que me chamem de forma nenhuma é “ceguinho”. Preconceito, estigma e depreciação são sinônimos dessa palavra que ás vezes se ouve por ai. É como um desconhecido tratar um negro de negrinho / neguinho ou uma mulher de mulherzinha. Note que esse diminuitivo talvez não deprecie outras palavras como branquinha, altinho, criancinha etc. Tal depreciação é proporcional ao grau de segregação que aquele grupo já carrega. Não me perturbo quando se dirigem a mim chamando “- ô ceguinho…”, simplesmente ignoro e faço de conta que não é comigo. E como diz Geraldo Magela: “Ceguinho é a mãe!”.
Quanto à palavra cego, não há problema nenhum em seu uso. Para se referir à uma pessoa que não enxerga, usa-se “cego”. O problema é a utilização equivocada da palavra cego em outros contextos que nada têm a ver com a visão dos olhos, onde cego é alienado, idiota, ignorante e comumente é utilizado para referir-se ao corno, enganado,alienado etc. Mas isso já é assunto pra outro tópico. Quando eu tinha baixa visão não gostava quando se referiam a mim como cego, o que é normal, visto que cego é aaquele que não enxerga nada. Então se o indivíduo enxerga algo, mesmo que pouco, refira-se a ele como deficiente visual e se nada enxerga, tanto faz deficiente visual ou cego. E se este último, mostrar desagrado por ter sido chamado de cego por você, o problema não está em você e sim nele que infelizmente não aceitou a sua cegueira.
Então sempre é de bom tom, em trabalhos acadêmicos, eventos, palestras, matérias jornalísticas, artigos e mesmo em conversas coloquiais, utilizar o termo “pessoa com deficiência” e, no caso de quem não enxerga, o termo “cego” ou “deficiente visual”. E sempre que termos forem utilizados erroneamente, é interessante indicar o termo correto, de preferência, de forma também correta. Vaiar a Presidente Dilma em uma conferência com pessoas com deficiência, como aconteceu em 2012, por ela ter se referido a estes como “portadores de deficiência” ficou pior do que o erro da presidente. Até porque errar é humano e o problema está em persistir nele. E é para isso que existem todas estas explicações e este blog.

Fonte:https://olhardeumcego.wordpress.com/2015/03/15/terminologias-corretas-e-cego-ou-deficiente-visual-3/

Nenhum comentário:

Postar um comentário